O mofo de cada um de nós

Eu sempre tive o hábito de arrumar armários em 2 épocas específicas do ano; antes do meu aniversário e antes do Natal, aquilo me dava a sensação de estar cumprindo um papel comigo mesma, não com a sociedade, mas comigo. E assim este costume veio me seguindo...

Nos últimos anos, continuei fazendo a mesma coisa, e até com mais frequência, sem datas pré-determinadas, mas mesmo depois disto sentia que um odor de mofo permanecia nos mobiliários.

Eu arrumava os armários, as gavetas, as estantes, mas o cheiro não saía.  Arrumava, os meus móveis, mas me davam a impressão de continuarem cheios, desarrumados e por mais que eu colocasse aromas de lavanda, perfumes ou outro bálsamo qualquer aquele odor parecia não sair.

Aquela sensação começava a me irritar, era um desaforo comigo mesma, um 10 x 0 nas minhas rotinas, nas minhas agendas definidas, na minha sempre tão organizada e metódica vida, mas isso já é outra história...

Nestes mesmos últimos anos, eu tinha sido apresentada a algumas desconhecidas faces da vida, outras mostraram-se mais feias do que me acostumara; mais dolorosas, doídas, sofridas, e porque não dizer feias, sim muito feias, e eu tinha muita raiva delas, eu queria muito me livrar de todas elas, mas elas não eram minhas, eu convivia, vivia, com aquelas estúpidas facetas da vida, mas minhas não eram, não tinha poder algum sobre elas, em verdade, muito demorei a perceber que poucos são os que detêm algum poder sobre a VIDA, e suas agruras, pouquíssimos...

Voltando, qual a ligação dos meus armários com minha vida, minhas dores, minhas agonias, meus últimos anos vividos? Minha estupidez, minha cegueira momentânea, não me deixavam perceber que meus mobiliários eram apenas a “representação de mim mesma”, e nele estava um enorme desejo de não querer “jogar fora” todas aquelas dores, “todas aquelas histórias”, de fechar “inúmeros capítulos” da minha vida, “de me ver exatamente como deveria”; que eu ainda tinha um medo enorme de chorar todos os oceanos que ainda não tinha chorado, receio de ainda parecer fraca diante de mim mesma, a vergonha de sentir tanta raiva, tanta raiva por tanta dor...

Foi só depois de muita terapia (minha terapeuta é uma santa, kkk) e muita coragem, que meus armários começaram a parecer organizados e “limpos”; na realidade, eu estava limpando a mim e não a meus móveis, eu estava me livrando de espectros, fantasmas, monstros (meus e outros que absorvi e guardei), eu estava me despindo de roupas que não me serviam, porque de fato eu não precisava mais delas, aliás, de nenhuma delas, agora eu sabia que aquelas roupas eram apenas apetrechos sob um corpo, e que eu mesma, não precisaria de nenhuma delas, e se não as tivesse, nenhuma diferença faria...

Eu já começava a ver ordem, as roupas não se amontoavam, não havia uma briga entre cabides no armário; sentir aroma de lavanda, almíscar, alfazema, todas as essências que tanto gosto já era fácil.  E neste caminho eu também descobri que aquela vida organizada, padronizada, metódica, ordenada, sistemática, programada, durante anos havia me deixado sem aquilo que eu mais amo na vida: surpresas; como eu poderia ser surpreendida pela vida, quando eu mesma me podava, me cerceava?

Fácil? Nem um pouco, foi um caminho doloroso, encarar-se é um dos processos mais difíceis que existem, mas valeu cada dia, e vale ainda hoje, e continuará valendo...

Afinal, dizem, para ser feliz, há que se ter coragem, muita coragem e convenhamos, mofo não combina com felicidade né?

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